Seu
isqueiro. Sua única salvação. Sua única lucidez. Seu isqueiro, sua chama
protetora. Desde que chegara ao hospício, foi o melhor tratamento que lhe
acharam. Ela não fumava, nem nunca fumou. A chama, solitária e duradoura,
mantinha sua mente acesa, distraída e lúcida, evitando distúrbios mentais muito
prováveis. Sempre que se sentia sozinha, ela o acendia. Os médicos finamente
acharam uma solução ao caso da viúva perdida.
Um dia,
comum aos outros. Tudo corria estranhamente normal, sem nenhuma irregularidade.
Ou seja, a viúva ainda não tinha acordado. Quando o fez, pegou imediatamente o
isqueiro; tivera um pesadelo com seu marido. Tentou acendê-lo, tentou, porque o aparelho não liberava o
calor irradiante. As míseras faíscas não lhe satisfizeram. Não renderiam
ninguém satisfeito. Isso a incomodou; quando o café-da-manhã fora servido, ela
não tocou na comida. Não parava de tentar extrair uma chama de seu aparelho.
“Não
está acendendo...” ela não parava de murmurar, como se isso de alguma maneira a
ajudasse. Seu tom era de desespero. “Não está acendendo!” gritava agora. Sua
raiva com o pequeno objeto que lhe trazia prazer e segurança era borbulhante.
Culpava-se, culpava seu marido, culpava a todos, menos ao isqueiro. Jogou sua
cama para trás com um movimento brusco e a enfermeira que viera servir-lhe o
café saiu com medo.
A viúva
não desistiria. Não assim tão fácil. Ela sentou-se no chão, com as pernas
cruzadas e começou a apertar furtivamente o botão que acionava o fogo. As
enfermeiras e médicos passavam e ofereciam-lhe outros isqueiros, mas somente
aquele em suas mãos a interessava. Os olhos saltando das órbitas, ela se
despenteava a cada vez que sua tentativa falhava. Sua pouca lucidez ia se esvaecendo,
e uma batalha no interior de sua mente. Pegue
outro isqueiro, dizia a pequena parte de seu cérebro que ainda não estava
louca. Não, continue tentando. Não recue
diante ao um desafio, dizia sua insanidade. É preciso dizer que a viúva
louca era extremamente teimosa, e jamais deixaria que lhe dissessem o que
deveria fazer.
Assim
passaram-se dias, a moça sem comer, beber ou dormir, só preocupada em acender o
isqueiro. Suas mãos já não eram sustentáveis de tão trêmulas e ela vinha
definhando e empalidecendo. Parecia um fantasma, um espírito penado. Já não
havia forças em suas mãos e em sua sanidade; ela já se entregara há muito tempo
à loucura. Seu único objetivo não era manter-se viva, mas sim manter a chama
viva.
Porém,
suas mãos fracas e trêmulas largaram o isqueiro e o objeto metálico caiu no
chão com um barulho baixo, mas contínuo. Talvez fora por fatiga, talvez fora
por desistência, não saberia dizer, mas a moça demorou um tempo antes de
pegá-lo de volta. Uns bons três minutos. E quando o pequeno isqueiro retornou
às suas mãos, ela caiu deitada no chão frio de azulejo. Fraca e pálida, seu
último ato foi tentar acender mais uma vez o isqueiro. Mas dessa vez, para sua
felicidade, a chama acendeu. Única, firme e contínua, ela brilhou. A viúva, sabendo
que jamais teria essa chance novamente, aproximou o fogo de seu rosto, e sentiu
o calor reconfortante. Ele não fazia mais efeito sobre sua insanidade, mas a
reconfortou. Ela largou isqueiro, ainda aceso, e depositou-o perto de sua cama.
A madeira se consumiu tão rapidamente pelas chamas que ninguém jamais
suspeitaria que esse fogaréu fora
produzido por um simples isqueiro. A mulher sorriu e sua visão foi escurecendo,
escurecendo e depois clareando, clareando. Ela já não pertencia mais a esse
mundo.